COM BASES NAS RESSONÂNCIAS DESSE
TERMO, FREUD DESENVOLVEU UM DOS CONCEITOS MAIS IMPORTANTES DE SUA TEORIA.
Muitas
vezes a palavra “narcisismo” é utilizada no senso comum de maneira pejorativa,
para designar um excesso de apreço por si mesmo. Para a psicanálise, trata se
de um aspecto fundamental para a constituição do sujeito. Um tanto de amor por
si é necessário para confirmar e sustentar a autoestima, mas o exagero é sinal
de fixação numa identificação vivida na infância.
A
ilusão infantil de que o mundo gira ao nosso redor é decisiva nessa fase, mas
para o desenvolvimento saudável é necessário que se dissipe, conforme deparamos
com frustrações e descobrimos que não ser o centro do universo tem suas
vantagens. Afinal, ser “tudo” para alguém (como acreditamos, ainda bem
pequenos, ser para nossa mãe) é um fardo pesado demais para qualquer pessoa.
Alguns, no entanto, se iludem com o fascínio do papel e passam sua vida
almejando o modelo inatingível de perfeição.
Diz
o mito grego que Narciso era uma criança tão linda e admirada que sua mãe,
Liríope, preocupada com esse excesso, levou-o até o sábio Tirésias. Ele lhe
disse que o menino só teria uma vida longa se jamais visse a própria imagem.
Por muito tempo essas palavras pareceram destituídas de sentido, mas os
acontecimentos que se desenrolaram mostraram seu acerto. Na adolescência,
Narciso era um jovem belíssimo, mas muito soberbo. Ao passear certo dia pelo
campo, a jovem Eco o viu e se apaixonou por ele, mas o rapaz a repeliu. Um dia,
cansado, Narciso dirigiu-se a uma fonte de águas límpidas. Eis então que a
profecia se realiza: ao ver-se refletido no espelho das águas, enlouqueceu de
amor pelo próprio reflexo. Embevecido, não tinha olhos nem ouvidos para mais
nada: não comia ou dormia. Em vão, Eco suplicava seu olhar. Mas Narciso só
olhava para si. Apaixonado, ensimesmado, busca para aplacar sua dor um outro que,
sendo ele mesmo, não lhe responde. Realiza-se, então, seu destino: mergulha no
espelho e desaparece no encontro impossível.
Sem
a possibilidade de reconhecimento do que é a própria imagem e do que é o outro,
o corpo de Narciso tornou-se pura miragem e desfez-se nas águas... E Eco, que
só a Narciso perseguia, só por ele clamava, só nele vivia, petrificou-se e
perdeu o poder de sua própria palavra. Narciso não cria laços; não partilha seu
encanto. Perde-se na imagem de si. Eco também se perde e, no desencontro,
entrega-se à repetição compulsiva, sem poder se separar da miragem
idealizada.
Com
base nas ressonâncias desse mito, Freud desenvolverá um dos conceitos mais
importantes de sua teoria – o narcisismo. Mencionado pela primeira vez em seus
escritos em 1909, é apresentado como uma fase própria do desenvolvimento
humano, quando se realiza a passagem do autoerotismo, do prazer centrado no
próprio corpo, para o reconhecimento e a busca do amor em outros objetos –
diferentes de si. Passagem importante e cheia de inquietações já que implica a
saída da gratificação por aquilo que é efeito apenas da própria imagem –
“Narciso só reconhece o que é espelho” – para a realização de uma das
conquistas mais importantes da cultura: a possibilidade de viver, aceitar e
trabalhar com a alteridade e, portanto, com as diferenças.
Freud
aborda explicitamente esse conceito – efeito do confronto vivido por ele mesmo
ao deparar com argumentos de Adler e Jung, que questionavam suas teorias acerca
do lugar ocupado pela sexualidade na constituição da subjetividade e na
compreensão das patologias. A legitimidade do conceito justificou-se a partir
da experiência freudiana com a clínica, naquilo que reconheceu como resistência
dos pacientes em abandonar suas posições amorosas, nas manifestações da
onipotência infantil e do pensamento mágico, nas doenças orgânicas e na
hipocondria – quando toda a libido se volta para o corpo doente – e nos
delírios de grandeza das psicoses. Em O mal-estar na civilização, de 1930,
Freud diz que um dos grandes obstáculos do homem em sua busca pela felicidade,
e que lhe traz maiores dificuldades, é o sofrimento resultante das relações
humanas, pois elas nos colocam em confronto com aquilo que, não sendo espelho,
nos solicita novos posicionamentos.
Toda
criança, ao nascer, é banhada por vários olhares e desejos. Quando se
contemplar no espelho, não verá o simples reflexo físico de uma imagem, mas
tudo o que esses olhares depositaram no seu corpo. É um momento fulgurante de
“sua majestade, o bebê!”. Júbilo para a criança e para os pais, que vêem
renascer das cinzas sua própria imagem idealizada e todos os seus anseios
irrealizados. Instante de narcisismo primário – constitutivo e alienante. O
bebê será um herói, vencerá todos os perigos; trata-se de um momento
necessário, mas cheio de riscos. Se não ocorre, a imagem de si pode não se
constituir, pode se fragilizar, parecendo insuficiente. Se for excessivo,
torna-se aprisionante, comprometendo o futuro, a possibilidade de construção de
projetos e os ideais.
Se
tudo correr bem, a criança se desligará desse olhar primordial e escapará do
destino fatal de Narciso – embeber-se, afogado, na tentativa de perpetuar o
encontro com a imagem que as águas lhe devolviam. Os desdobramentos do
narcisismo são de fundamental importância para a análise do mundo em que
vivemos. A valorização da imagem e do sucesso a qualquer custo reduz a
tolerância das mínimas divergências – o que Freud chamou de narcisismo das
pequenas diferenças – e acirra os conflitos, seja nas pequenas discordâncias do
cotidiano ou nos grandes conflitos bélicos. Se o outro não me satisfaz, se não
é espelho daquilo que almejo, se tenta opor se às minhas vontades e ameaça
minha autoestima, eu o aniquilo. O terreno é propício para preconceitos,
fanatismos e violência.
A
tragédia vivida por Narciso não nos abandona. Deixa sempre restos que nos fazem
seguir pela vida tentando reencontrar o olhar mágico que nos enlevava e nos
dizia tudo que éramos. Busca incessante de certezas, de entrega passiva às
ilusões...
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